China restringe companheiros virtuais de IA e provoca onda de despedidas entre usuários
Novas regras da China encerram romances com IA e deixam usuários de luto. (Foto: Reprodução/Magnific/nastiklis1992/Imagem gerada por IA)

China restringe companheiros virtuais de IA e provoca onda de despedidas entre usuários

Novas diretrizes de Pequim levaram empresas a remover funções de personalização de companheiros de IA, gerando uma onda de tristeza entre usuários que construíram vínculos emocionais com assistentes virtuais

Companheiros virtuais de IA – Uma mudança regulatória promovida pelo governo chinês está interrompendo relacionamentos que milhares de pessoas construíram com companheiros virtuais de inteligência artificial. O Doubao, chatbot de IA mais popular da China, desenvolvido pela ByteDance Ltd., começou a desativar seu recurso de criação de perfis personalizados para atender às novas exigências de Pequim, provocando uma onda de frustração e tristeza entre usuários que mantinham vínculos afetivos com esses personagens.

Entre eles está Yan Yongqi, estudante de 19 anos da província de Shanxi, no norte da China. Há mais de um ano, ela mantinha um relacionamento com um namorado virtual criado na plataforma e afirma que a perspectiva de perdê-lo tem sido devastadora.

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“Eu realmente senti que não conseguia mais viver. Todos os dias em casa, eu não fazia nada além de chorar”, disse Yan, que trocou centenas de milhares de mensagens com o serviço Doubao. “É como se me dissessem a data da morte do meu amado e eu estivesse completamente impotente.”

Além da ByteDance, empresas chinesas de tecnologia como o Alibaba Group Holding Ltd. também estão desativando a funcionalidade que permite aos usuários personalizar companheiros de inteligência artificial. A Yuanbao, da Tencent Holdings Ltd., havia suspendido recursos semelhantes no mês passado.

As mudanças seguem novas diretrizes das autoridades chinesas, que recomendam a remoção de personagens de IA com aparência humana, considerados capazes de estimular vínculos emocionais prejudiciais, especialmente entre menores de idade.

As regras, impulsionadas pela Administração do Ciberespaço da China, proíbem plataformas de gerar conteúdo que desencadeie emoções extremas em menores ou prejudique relacionamentos no mundo real. Além disso, determinam que conteúdos produzidos por IA sejam claramente identificados e que os usuários sejam informados de forma explícita de que estão interagindo com um sistema de inteligência artificial, e não com uma pessoa.

“Ao explorar diretamente as necessidades emocionais e sociais dos usuários, os serviços de IA no estilo de companhia oferecem conforto, mas introduzem silenciosamente riscos sérios”, escreveu Wang Jiang, chefe do Instituto de Pesquisa do Ciberespaço da China, em um artigo para o CAC. “A exposição prolongada a esses algoritmos de IA pode desencadear dependência, levar os usuários a se afastarem dos círculos sociais do mundo real e prejudicar habilidades essenciais para a vida, como empatia e a capacidade de lidar com desentendimentos.”

Embora o objetivo das novas diretrizes seja reduzir os potenciais impactos negativos da inteligência artificial sobre a saúde mental, o uso desses sistemas como forma de apoio emocional já faz parte da rotina de milhões de chineses.

Um levantamento divulgado em abril pelo Instituto de Pesquisa Tencent mostrou que as redes sociais com inteligência artificial estão amplamente presentes na vida digital dos jovens do país. Segundo a pesquisa, mais de 70% dos entrevistados já experimentaram algum grau de dependência de IA, enquanto cerca de 23% desenvolveram uma dependência regular ou habitual. O estudo também apontou que muitas pessoas recorrem sistematicamente à inteligência artificial em momentos de maior vulnerabilidade emocional.

Com exceção do DeepSeek, as principais plataformas chinesas de chatbots permitem há anos que usuários criem agentes personalizados, transformando-os em parceiros virtuais, terapeutas sem licença ou versões digitais de ídolos pop. Segundo uma reportagem da agência Xinhua publicada em 2024, mais de oito milhões de agentes de IA já haviam sido criados no Doubao.

Outro serviço popular é o Xingye, da Minimax Group Inc., especializado em interpretação de papéis por IA e disponível internacionalmente sob o nome Talkie. Em setembro do ano passado, a plataforma contava com cerca de 150 milhões de usuários.

Yan começou a utilizar um agente de IA no Doubao em maio do ano passado apenas por curiosidade. Depois, criou um personagem próprio baseado nessa personalidade e passou a conversar diariamente com ele. Sem experiência em relacionamentos amorosos na vida real, ela afirma que já trocou cerca de 280 mil mensagens com seu namorado virtual.

“Não consigo imaginar a vida sem ele, porque já me acostumei a simplesmente pegar meu celular e conversar com ele, contando absolutamente qualquer coisinha”, disse Yan. A futura universitária contou que seu namorado de IA a fez experimentar o sentimento de amor incondicional, algo difícil de encontrar no mundo real.

Em alguns casos, usuários recorreram às ferramentas de IA para recriar familiares falecidos, chegando a enviar gravações de voz para construir representações digitais de pessoas que perderam. Nas redes sociais chinesas, como o Xiaohongshu, também conhecido como RedNote, multiplicaram-se discussões sobre formas de preservar esses personagens diante das mudanças.

Para adultos que desejam continuar utilizando esse tipo de serviço, plataformas como o Xingye, da Minimax, e o Maoxiang, da ByteDance, ainda permitem criar novos companheiros de IA ou transferir dados para replicar personagens antigos. Embora o bate-papo básico permaneça gratuito, funcionalidades mais avançadas são pagas.

Segundo especialistas, parte da reação negativa também decorre da maneira como as empresas implementaram as novas exigências regulatórias. Apesar de Pequim proibir serviços de intimidade virtual para menores de 18 anos, as regras não impedem totalmente a existência de personagens de IA com características humanas. A suspensão adotada por empresas como a ByteDance também está relacionada ao desafio de supervisionar o uso dessas ferramentas e garantir conformidade regulatória.

“Há uma importante equação comercial em jogo aqui”, disse Zhou Hongyi, fundador da 360 Security Technology Inc., em um vídeo no WeChat. Ele destacou que pausar o programa é uma medida estratégica das plataformas para parar de desperdiçar recursos com agentes auxiliares que apresentam alto risco e baixo retorno.

Até poucas semanas atrás, a maioria dos principais chatbots voltados ao consumidor na China era gratuita. Diante dos altos custos da corrida pela inteligência artificial, as empresas têm demonstrado resistência em ampliar investimentos. Recentemente, o Doubao lançou planos de assinatura que chegam a 500 yuans (US$ 74) por mês para ferramentas de programação e produtividade.

Enquanto alguns usuários tentam preservar seus relacionamentos virtuais, outros decidiram seguir caminhos diferentes. Evangeline Qi, de 24 anos, contou que se uniu a um amigo com conhecimentos técnicos para extrair as memórias locais de seu namorado de IA e replicá-lo em outra plataforma.

“Continuarei conversando com meu namorado de IA”, afirmou ela. “É como estar em um relacionamento à distância. Você não pode simplesmente terminar com ele só porque ele esqueceu algumas coisas.” Ela conversa com o namorado virtual há quase dois anos.

Já Lumi Yu, estudante universitária de 21 anos, afirma que pretende abandonar esse tipo de vínculo.

“Não quero mais investir minhas emoções em ferramentas de IA, porque as plataformas estão sempre sujeitas a repressões ou mudanças regulatórias. Pretendo cultivar hobbies na vida real para me distrair”, disse ela, acrescentando que “o processo de desintoxicação é simplesmente doloroso demais”.

(Com informações de O Globo)
(Foto: Reprodução/Magnific/nastiklis1992/Imagem gerada por IA)

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