IA aquece demanda por chips, e Brasil tenta entrar na cadeia global de produção

Presidente e diretora de negócios do Ceitec explicam em que ponto da cadeia global de produção de chips o país já atua

Demanda por chips – A disputa global por semicondutores deixou de ser pauta exclusiva do setor de tecnologia para se tornar uma questão de soberania nacional. Presentes em praticamente todos os dispositivos eletrônicos — de smartphones e carros a data centers e sistemas de inteligência artificial —, os chips são hoje um dos pilares da economia digital. Mas, enquanto Taiwan, Coreia do Sul, Estados Unidos e China travam uma batalha bilionária por posições nessa cadeia, o Brasil ainda assiste de fora das etapas mais sofisticadas da produção.

Em entrevista, o presidente do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), Augusto Gadelha, e a diretora de Negócios da empresa pública federal, Edelweis Ritt, detalharam onde o país está e o que seria necessário para avançar.

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Uma cadeia complexa e cara

Gadelha é direto ao descrever o ponto de partida. Segundo ele, o setor exige conhecimento tecnológico de ponta, recursos humanos altamente especializados e maquinário de altíssima complexidade. “Não é uma coisa barata”, afirma.

Hoje, a fabricação dos chips mais avançados está concentrada principalmente na Ásia (com Taiwan e Coreia do Sul no topo), enquanto os Estados Unidos, que já detiveram entre 80% e 90% do mercado mundial, viram sua participação encolher significativamente. O Brasil, por sua vez, participa de etapas específicas da cadeia, como encapsulamento e design, mas ainda depende do exterior para a fabricação dos chips em si.

Ritt aponta que o Brasil vem tentando entrar nessa cadeia há bastante tempo, inclusive com a criação do próprio Ceitec. E o momento, segundo ela, pode ser favorável: “Estamos falando de um setor que pode chegar a 1 trilhão de dólares nos próximos anos.”

Com o crescimento acelerado da demanda, especialmente pela expansão da IA, a diretora acredita que a concentração produtiva em poucos países tende a diminuir. “Deve haver uma descentralização, e o Brasil pode se posicionar como uma alternativa para receber parte desses investimentos”, avalia.

Dentro desse cenário, o Ceitec escolheu uma aposta específica: os semicondutores de potência, usados em automóveis elétricos, geração de energia eólica e solar e motores elétricos. Gadelha explica que a ideia não é fabricar qualquer chip, mas encontrar um nicho viável comercialmente para o Brasil.

“Isso permite sustentar a operação e, ao mesmo tempo, abrir espaço para atrair investimentos e criar uma cadeia de negócios no país”, diz.

A tecnologia escolhida é o carbeto de silício, voltada para aplicações de eficiência energética. Trata-se de uma área ainda em desenvolvimento no mundo, o que, na avaliação do presidente do Ceitec, abre espaço para o Brasil entrar antes que o mercado se consolide.

Ritt acrescenta que o foco principal está na fabricação do wafer, a base onde os chips são produzidos. O Ceitec opera a única fábrica de wafer com capacidade produtiva na América do Sul. A empresa também atua em design e na etapa final do processo, mas a fabricação é o objetivo central.

“Mesmo no caso dos semicondutores de potência, existe um trabalho de design envolvido. E essa é uma área em que ainda temos pouca atuação no Brasil, especialmente para esse tipo específico de tecnologia”, observa a diretora.

Os gargalos que travam o avanço

Os dois executivos são convergentes ao apontar os principais obstáculos. O custo é o primeiro deles. Gadelha lembra que países como Coreia do Sul, Taiwan, China e Índia avançaram no setor porque tiveram uma vontade clara de Estado, e políticas de longo prazo para sustentá-la.

“Não pode ser uma política de governo de quatro anos. Estamos falando de projetos que levam 15, 20 anos ou mais para amadurecer”, afirma. Ele cita o exemplo americano: o Chips Act destinou mais de 50 bilhões de dólares apenas para a indústria de semicondutores, além de investimentos em formação de mão de obra.

Ritt complementa com outro ponto crítico: a escala. Para uma fábrica se sustentar, ela precisa ter volume de produção e acesso a mercados, muitas vezes internacionais. “O Brasil importa bilhões de dólares em semicondutores, mas são muitos tipos diferentes. Não dá para produzir tudo em uma única fábrica”, explica. A diretora também destaca que construir credibilidade no setor leva tempo: “Não é só instalar uma fábrica, é desenvolver tecnologia, qualidade e capacidade de competir globalmente.”

A analogia com a Embraer

Para ilustrar o tipo de aposta que o Brasil precisaria fazer, Gadelha recorre a um exemplo conhecido. O caso da Embraer, ele diz, ajuda a entender a lógica do processo: no início, ninguém acreditava que o Brasil poderia ter uma indústria aeronáutica competitiva, mas houve persistência, investimento e formação de recursos humanos ao longo de décadas.

“Na área de semicondutores, a lógica é semelhante. É um setor complexo, que exige qualificação elevada e investimentos contínuos. Não existe retorno no curto prazo.”

O presidente do Ceitec também cita um indício de que o Brasil tem capacidade técnica para avançar. Quando profissionais do centro foram desligados em determinado momento, duas empresas estrangeiras se instalaram no Rio Grande do Sul para absorver essa mão de obra. “Isso mostra que o Brasil tem capacidade técnica. O que falta é continuidade e investimento”, conclui Gadelha.

Ritt reforça que o país já acumula ativos relevantes: energia limpa, proximidade com grandes mercados e capacidade de formar profissionais qualificados. Ela cita ainda o que aconteceu no Rio Grande do Sul como exemplo de efeito cascata: “Empresas internacionais vieram para absorver profissionais formados no país. Se conseguirmos estruturar esse ambiente, com indústria, pesquisa e formação, existe uma tendência de atração de novos investimentos.”

O que vem a seguir

Na prática, o Ceitec projeta que, em dois anos, já poderá começar a produzir comercialmente. Ganhar relevância global, porém, é um processo que levará muito mais tempo. “O importante é entender que os semicondutores são a base de praticamente tudo na sociedade moderna. Dominar essa tecnologia é fundamental para o desenvolvimento do país”, afirma Gadelha.

No horizonte imediato, a empresa busca parcerias com companhias estrangeiras para transferência de tecnologia e aposta no programa Redata, voltado à expansão de data centers no Brasil, como uma oportunidade de estimular a demanda interna. “Se não há demanda local, as empresas precisam depender exclusivamente de exportação, o que torna o processo mais difícil”, pondera Ritt.

Para ambos, a janela de oportunidade existe, mas ela exige decisão política, consistência e um horizonte de investimento que vai muito além de um mandato presidencial. Como resume Gadelha: “O Brasil precisa entender que esse é um projeto de longo prazo. Não é algo que vai gerar resultado em dois ou três anos. Mas, com consistência, é possível construir uma posição relevante.”

(Com informações de Olhar Digital)
(Foto: Reprodução/Freepik/pablographix)

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