Radares captam sinais vitais à distância, mas levantam debate ético

Radares captam sinais vitais à distância, mas levantam debate ético

Sensores de rádio e câmeras já conseguem captar sinais vitais sem contato físico, mas trazem preocupações sobre vigilância e uso indevido de dados

Radares – Por décadas, medir os batimentos cardíacos de uma pessoa exigiu contato físico direto, seja por meio de eletrodos, oxímetros ou dispositivos presos ao corpo. Esse cenário começa a mudar com o avanço de sensores de rádio capazes de captar sinais vitais à distância, sem fio e sem a necessidade de qualquer equipamento vestível.

A tecnologia evoluiu rapidamente nos últimos anos e já apresenta resultados clínicos relevantes. Entre as aplicações estão a detecção de apneia do sono, o acompanhamento remoto de pacientes cardíacos, o monitoramento de bebês prematuros sem contato com a pele e até a identificação de sinais precoces de sofrimento psicológico em trabalhadores.

LEIA: Estudo sobre felicidade aponta efeito negativo das redes sociais nos jovens

Ao mesmo tempo em que esses sensores se tornam menores, mais baratos e mais precisos, sendo incorporados a laptops, roteadores e dispositivos domésticos, cresce a preocupação entre especialistas sobre o controle dos dados captados.

O funcionamento desses sistemas se baseia na emissão de ondas de rádio que, ao atingirem o corpo humano, retornam com pequenas variações. Cada batimento cardíaco provoca vibrações microscópicas no tórax, que são registradas pelo sinal refletido. Com o auxílio de algoritmos, é possível extrair essas informações mesmo em meio a ruídos, permitindo estimar a frequência cardíaca de uma pessoa a vários metros de distância.

Estudos recentes indicam que sensores comerciais conseguem atingir um erro médio de cerca de 5 a 6 batimentos por minuto em relação a métodos de referência, inclusive em ambientes dinâmicos, como dentro de veículos em movimento. Embora menos precisos que equipamentos médicos tradicionais, esses dispositivos já são considerados adequados para monitoramento contínuo no cotidiano.

Além da frequência cardíaca, os sensores conseguem medir a variabilidade entre os batimentos, conhecida como HRV (variabilidade da frequência cardíaca). Esse indicador está diretamente ligado ao sistema nervoso autônomo e pode revelar níveis de estresse, fadiga e outras condições fisiológicas, mesmo sem o conhecimento da pessoa monitorada.

Paralelamente, tecnologias baseadas em câmeras comuns também avançam nesse campo. A partir de variações sutis na coloração da pele causadas pelo fluxo sanguíneo, algoritmos conseguem extrair dados como batimentos cardíacos e respiração apenas analisando imagens do rosto. Embora úteis em consultas médicas remotas, essas técnicas ampliam o risco de monitoramento involuntário, já que qualquer câmera pode, em tese, desempenhar essa função.

Apesar das preocupações, a maior parte das pesquisas na área tem foco em aplicações médicas. Uma revisão publicada em 2022 reuniu usos como monitoramento domiciliar de pacientes, diagnóstico de distúrbios do sono, prevenção de morte súbita em recém-nascidos, acompanhamento de queimados sem contato físico e detecção de sinais vitais em vítimas sob escombros.

Instituições como o Fraunhofer IDMT, na Alemanha, desenvolvem projetos voltados ao monitoramento contínuo de saúde, especialmente para idosos, permitindo o acompanhamento sem a necessidade de dispositivos vestíveis.

Na área de saúde mental, estudos recentes também indicam potencial significativo. Uma pesquisa de 2024 mostrou que sensores acoplados a cadeiras de escritório conseguiram identificar níveis elevados de sofrimento psicológico com boa precisão, alinhando-se aos resultados de eletrocardiogramas. Trabalhos anteriores já haviam demonstrado a capacidade de classificar estados como fadiga cognitiva com cerca de 82% de acurácia.

Esse mesmo potencial, no entanto, levanta preocupações éticas. A tecnologia que permite monitorar a respiração de um idoso durante a noite poderia, em outro contexto, ser usada por empregadores para acompanhar níveis de estresse de funcionários sem consentimento.

Pesquisadores da Universidade Rice demonstraram que sensores já presentes em dispositivos como laptops e smartphones são capazes de medir batimentos cardíacos à distância com precisão suficiente para inferir estados fisiológicos. Segundo a pesquisadora Dora Zivanovic, a ausência de regulamentação específica favorece o risco de uso indevido, especialmente porque muitos não associam esses sensores ao monitoramento biométrico.

Outro fator que agrava o cenário é a dificuldade de detectar esse tipo de tecnologia. Diferentemente de câmeras, cuja presença costuma ser visível, sensores de radar operam de forma praticamente invisível. Além disso, conseguem atravessar materiais como roupas, captando sinais fisiológicos sem necessidade de contato visual direto.

No ambiente corporativo, a coleta de dados biométricos já ocorre por meio de dispositivos como smartwatches, geralmente em programas de bem-estar. Especialistas alertam que essas informações podem ser reutilizadas para decisões relacionadas ao desempenho ou até demissões, muitas vezes em áreas pouco reguladas.

Diante desse cenário, surgem iniciativas para proteger os dados antes mesmo de sua captação. Um exemplo é o sistema MetaHeart, desenvolvido pela equipe da Universidade Rice, que utiliza uma metassuperfície para manipular ondas eletromagnéticas e substituir o sinal real do corpo por padrões artificiais. Em testes de laboratório, a tecnologia alcançou precisão superior a 98% na falsificação de leituras.

Apesar do avanço, desafios técnicos ainda limitam sua aplicação prática, como a necessidade de conhecer a frequência exata do radar utilizado e a dificuldade de ampliar o alcance do dispositivo para uso cotidiano.

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica dados biométricos como sensíveis, exigindo proteção reforçada. No entanto, o enquadramento de sinais fisiológicos, como frequência cardíaca e padrões respiratórios, ainda depende do contexto de uso e da possibilidade de associação a uma pessoa identificável.

Especialistas apontam que a coleta sem transparência representa um dos principais riscos jurídicos, podendo resultar em sanções. Também há preocupação com o chamado desvio de finalidade, quando dados coletados para fins de saúde passam a ser utilizados em contextos comerciais.

A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) já sinalizou maior rigor na regulação de biometria, suspendendo em 2025 um programa que oferecia recompensas pela coleta de íris e indicando que o tema será prioridade nos próximos anos.

Na Europa, a legislação avançou ao proibir o uso de tecnologias que tentem inferir estados emocionais de trabalhadores a partir de dados corporais, independentemente do método utilizado.

Para especialistas, o principal desafio será equilibrar inovação e proteção. À medida que os sistemas de sensoriamento se tornam mais sofisticados, cresce a necessidade de garantir que seu uso ocorra com transparência, consentimento e limites claros.

(Com informações de g1)
(Foto: Reprodução/Freepik/davidpinta9122)

Leia mais