Maioria das mulheres líderes enfrentou barreiras de gênero na carreira

Maioria das mulheres líderes enfrentou barreiras de gênero na carreira

Estudo com mais de 1,5 mil profissionais aponta que 77% das mulheres em cargos de liderança já enfrentaram obstáculos relacionados ao gênero

Barreiras de gênero – Oito em cada dez mulheres em cargos de liderança disseram que barreiras de gênero dificultaram o avanço na carreira, segundo o levantamento “Alianças masculinas e a liderança das mulheres: além do discurso”, feito pela Todas Group em parceria com a Nexus, empresa de pesquisa e inteligência de dados.

De acordo com o estudo, 77% das mulheres em cargos de liderança entrevistadas afirmaram já ter encontrado impedimentos por conta do gênero. Desse total, 46% disseram ter sentido algumas dificuldades e 31% falaram em muitas barreiras; 17% delas afirmaram nunca ter passado por esse tipo de situação.

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A percepção de barreiras aumenta conforme a mulher avança na hierarquia corporativa. Entre presidentes, vice-presidentes, sócias e CEOs, 40% disseram ter enfrentado muitas dificuldades de gênero, índice maior do que a média geral.

Barreiras persistem em cargos altos

Perguntadas sobre o que escolheriam caso as empresas em que trabalham implementassem uma única mudança concreta para elas pelo 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, comemorado neste domingo, duas em cada dez disseram que gostariam de um programa de aceleração e desenvolvimento para elas.

O levantamento ouviu 1.534 mulheres entre os dias 6 e 22 de fevereiro de 2026, de forma online, com disparos para a base de 25 mil mulheres cadastradas pela Todas Group, todas de grandes empresas e startups com operação no Brasil.

“O dado mais revelador dessa pesquisa é que três em cada quatro mulheres percebem algum grau de desigualdade, seja explícita ou sutil”, diz Dhafyni Mendes, cofundadora da Todas Group. “Isso indica que o desafio atual não está apenas no acesso das mulheres aos cargos, mas principalmente na conversão da sua contribuição em reconhecimento proporcional”, complementa.

Segundo ela, estudos globais confirmam esse padrão: mulheres entregam resultados equivalentes aos dos homens, mas recebem menor reconhecimento, o que impacta diretamente em promoções e progressões. “Ter mais homens nessa conversa estratégica para os negócios é fundamental no objetivo de retenção de talentos.”

Além de programa de aceleração do crescimento, 17% escolheriam como “presente” mais mulheres promovidas para cargos estratégicos e 16% gostariam de flexibilização da jornada de trabalho para maior equilíbrio entre a vida profissional e pessoal.

Também aparecem entre as demandas programas de conscientização masculina sobre comportamentos que invalidam mulheres (11%), transparência nos critérios de promoção (10%) e igualdade salarial (10%).

Relatos de discriminação

A advogada Pamela Satubal, 32, afirma ter percebido as diferenças de gênero logo no início da carreira. No primeiro estágio, diz que um colega homem recebia benefícios melhores mesmo exercendo as mesmas funções. “Logo percebi que o vale-alimentação dele era maior, que a bolsa dele aumentou enquanto a minha não”, conta.

Ela diz que situações de discriminação também surgiram em outras ocasiões, assim como comentários machistas. “Os homens eram sempre chamados para reuniões ou almoços mais importantes. Já ouvi comentários de que a estagiária mais bonita deveria falar com o cliente”, diz.

Pamela afirma que chegou a pensar em abandonar a advocacia, mas decidiu seguir na profissão. Hoje é sócia da Mota Assessoria, uma empresa com mais de 60 funcionários. “Fiz terapia porque comecei a achar que era menos capaz. Hoje vejo que eu era apenas diminuída por ser mulher.”

A assessora de comunicação Danielly Oliveira, 31, diz que precisou provar sua competência diversas vezes para ocupar cargos de liderança. Ela relata que a idade e o gênero frequentemente eram usados para questionar sua capacidade profissional.

“Mesmo depois de apresentar estratégias e planejamentos detalhados, muitas vezes minha palavra não era suficiente. A validação vinha apenas quando outro homem confirmava a ideia”, afirma.

A professora de pós-graduação em direito do trabalho Maria Cecilia Lemos, do centro universitário UDF, diz que situações de assédio moral ou sexual podem influenciar diretamente a permanência das mulheres no mercado. “O assédio gera ambientes hostis e pode resultar em afastamento do trabalho ou interrupção da trajetória profissional”, afirma.

A professora explica que a desigualdade está ligada a uma divisão histórica de papéis entre homens e mulheres. “A divisão sexual do trabalho atribuiu aos homens o trabalho produtivo e às mulheres o trabalho doméstico. Isso acabou criando uma hierarquia social em que o trabalho masculino passa a ser mais valorizado”, afirma.

“Características associadas à liderança, como assertividade e competitividade, ainda são culturalmente vinculadas ao masculino. Muitas mulheres precisam demonstrar desempenho superior para obter o mesmo reconhecimento”, diz Maria Cecilia.

O levantamento aponta que as dificuldades podem ser maiores dependendo da área. Em marketing e comunicação, 84% relataram barreiras por gênero. Na tecnologia da informação e startups foram 81% e recursos humanos e consultoria de gestão também 81%.

A marionetista Juliana Notari, 45, afirma que percebe o recorte de gênero ao longo de seus 25 anos de carreira como artista independente. Ela diz enfrentar mais dificuldade para ter seus trabalhos programados em festivais, editais e instituições culturais.

“Existe um tratamento diferente. Quem decide as programações ainda são majoritariamente homens. Quando você não é programada, você simplesmente não existe dentro do sistema artístico”, afirma.

Juliana apresentou espetáculos em mais de 40 países. Um de seus trabalhos mais recentes, que discute justamente o corpo da mulher e a identidade feminina, demorou anos para conseguir espaço no Brasil.

Homens dificultam promoções

A pesquisa indica que 63% das participantes já sentiram que homens dificultaram diretamente seu crescimento profissional. Além disso, apenas 23% acreditam que seu trabalho é reconhecido e valorizado da mesma forma que o dos homens nas empresas em que atuam.

O estudo aponta ainda a presença frequente de comentários machistas no ambiente corporativo: só 11% disseram nunca ter presenciado esse tipo de situação.

Segundo Ana Lemos, gerente de pesquisas da Nexus, os dados demonstram que, em ambientes com maior equilíbrio entre homens e mulheres na liderança, há menor incidência de comentários preconceituosos.

“Em empresas onde há equilíbrio entre homens e mulheres em cargos de liderança, 65% dizem raramente ou nunca ouvir comentários machistas. O número é 24 pontos percentuais superior ao índice geral da amostra , mostrando que em ambientes equalitários há menos espaço para desrespeito de gênero.”

(Com informações de Folha de S.Paulo)
(Foto: Reprodução/Freepik/ArthurHidden)

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