Mensagens internas da Meta pressionam Zuckerberg durante depoimento em tribunal

Mensagens internas da Meta pressionam Zuckerberg durante depoimento em tribunal

Executivo negou que adolescentes sejam público-alvo da plataforma ao ser confrontado com mensagens internas que apontavam o contrário

Zuckerberg – O presidente-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, foi confrontado em tribunal, em Los Angeles, com comunicações internas da companhia que tratam adolescentes como prioridade estratégica e fixam metas de engajamento para o Instagram. O depoimento integra o julgamento que avalia possíveis efeitos das redes sociais sobre a saúde mental de jovens, em ação movida por uma jovem identificada como KGM, atualmente com 20 anos.

Na audiência, advogados da autora apresentaram documentos produzidos em diferentes anos, mencionando objetivos ligados a tempo de permanência no aplicativo, relevância cultural entre adolescentes e comparações diretas com concorrentes como o TikTok. O processo, iniciado no fim de janeiro, busca determinar se o Instagram contribuiu para quadros de ansiedade, depressão e distorções de imagem corporal relatados pela jovem. A ação também envolve plataformas como Snapchat e YouTube.

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Ao longo do depoimento, uma série de relatórios e trocas de mensagens corporativas foi exibida ao júri. Os registros tratam de prioridades voltadas ao público adolescente, métricas de retenção e discussões sobre idade mínima de uso.

Entre os materiais apresentados, estava um e-mail de 2017 que afirmava que “Mark decidiu que a principal prioridade da empresa em 2017 são os adolescentes”.

Segundo a leitura feita em plenário, o texto indicava que Zuckerberg desejava que a equipe responsável por esse público organizasse planejamento e execução estratégica. Questionado se havia tido acesso ao material, o CEO declarou que o contexto sugeria que sim.

Outro trecho destacava “U13: smartphones dominam a partir dos 10 anos”. Zuckerberg respondeu: “Não me lembro do contexto disso”. Ele acrescentou que a empresa já sabia que “há pessoas menores de 13 anos que querem usar o serviço e contornam as regras”.

Interrogado pelo advogado da Meta, Paul Schmidt, sobre se adolescentes constituem público-alvo do Instagram, Zuckerberg negou. “Acho que não ”, afirmou. De acordo com ele, menos de 1% da receita da rede advém desse grupo, que, segundo destacou, possui baixo poder aquisitivo.

“O Instagram se preocupava em ‘garantir que todos pudessem obter valor com o que estávamos fazendo’”, declarou. Ele também sustentou que direcionar esforços especificamente aos adolescentes não era algo “significativo a curto prazo”.

Estratégia para atrair “tweens”

O advogado Mark Lanier apresentou ainda um documento de dezembro de 2018 intitulado “M&A and market landscape review – long-term retention and its implications”, no qual se afirmava que a empresa teria “estabelecido definitivamente os tweens como o grupo de maior retenção nos Estados Unidos”.

O termo “tweens” designa crianças entre 8 e 12 anos, faixa etária intermediária entre infância e adolescência. O material indicava que usuários que ingressaram no Facebook aos 11 anos apresentavam retenção de longo prazo quase quatro vezes superior àqueles que aderiram à rede aos 20.

Lanier destacou o trecho: “Se quisermos vencer entre adolescentes, precisamos trazê-los ainda como tweens”. Em seguida, ponderou que, em tese, não deveria haver usuários de 11 anos nas plataformas da Meta.

Zuckerberg respondeu que, ao longo do tempo, diferentes equipes debateram formas de desenvolver serviços seguros para públicos mais jovens. “Não me surpreende que pessoas internamente estivessem estudando isso”, afirmou.

E-mail levanta dúvidas sobre verificação de idade

Outro documento exibido ao júri foi um e-mail de 2019 enviado por Nick Clegg, então responsável por assuntos globais na Meta. Na mensagem, ele escreveu: “O fato de termos limites de idade que não são aplicados torna difícil afirmar que estamos fazendo tudo o que podemos”.

Zuckerberg declarou que a checagem de idade é um desafio recorrente entre empresas de tecnologia e que o tema é amplamente debatido no setor.

Lanier argumentou que o executivo não mencionou o teor desse e-mail quando prestou depoimento ao Congresso dos Estados Unidos, ocasião em que afirmou que menores de 13 anos não eram autorizados a utilizar o Instagram.

O CEO respondeu que, embora tenha abordado dificuldades na verificação etária em seu depoimento, não tratou de mensagens específicas.

Comparações com o TikTok

Parte significativa do interrogatório concentrou-se em relatórios de 2022 que avaliavam o desempenho do Instagram e sua posição frente a concorrentes.

Zuckerberg foi questionado sobre um documento discutido com Adam Mosseri. Segundo leitura em tribunal, o “objetivo principal” era manter o aplicativo “culturalmente relevante” por meio de sessões e tempo de uso, “especialmente com adolescentes”.

Outro trecho apontava: “Minha meta ambiciosa era ultrapassar o TikTok em tempo gasto”.

Zuckerberg respondeu: “Da forma como leio isso, tentamos aumentar o valor dos nossos serviços, mas também medir nosso progresso em relação a concorrentes como o TikTok”. Ele acrescentou que o tempo de uso é uma métrica relevante para “entender” como o aplicativo se posiciona no mercado.

Marcos internos de uso diário

Também foi apresentado um e-mail de 2022 com “marcos” de engajamento, prevendo média de 40 minutos diários por usuário ativo em 2022, com projeções de aumento gradual até 46 minutos em 2026.

Zuckerberg negou que se tratassem de metas formais. “Essas não são metas”, disse, sustentando que eram indicadores para avaliar desempenho.

Idade mínima e responsabilidade da plataforma

Documentos internos indicaram que a Meta estimava que cerca de 4 milhões de menores de 13 anos utilizariam o Instagram em 2025, embora a plataforma proíba contas nessa faixa etária. “Há um conjunto de pessoas que mentem sobre a idade para usar os serviços”, afirmou Zuckerberg.

Lanier questionou: “Você espera que uma criança de nove anos leia termos e condições?”.

O executivo declarou que a companhia reforçou mecanismos de proteção ao longo do tempo. “Nós evoluímos para adicionar muito mais controles”, disse, observando que contas são excluídas quando irregularidades são identificadas.

Em outro momento, comentou um documento que abordava oportunidades relacionadas ao comportamento digital de crianças de 8 a 12 anos: “Você está insinuando que não estávamos tentando trabalhar nisso, e isso não é verdade”.

Um Facebook exclusivo para menores?

A defesa apresentou um registro interno que mencionava a criação de uma plataforma chamada “FB1”, voltada exclusivamente a menores de 13 anos. Zuckerberg confirmou que “discutiu a possibilidade de criar uma versão do serviço em que os pais pudessem controlar seus filhos”. A iniciativa permitiria cadastro legítimo, com supervisão parental.

Segundo ele, o projeto não avançou porque “construir algo assim era muito complicado”. “Na verdade, nunca conseguimos encontrar uma maneira produtiva de fazer isso”, explicou. Ainda assim, a empresa desenvolveu uma versão infantil do Messenger.

Redes sociais e saúde mental

Durante a audiência, Lanier apresentou um documento interno sobre “enquadramento de empatia juvenil”, que examinava potenciais efeitos negativos das redes, como prejuízos ao sono associados ao aumento do tempo de tela.

O texto também mencionava que adolescentes podem tirar cerca de 20 selfies antes de escolher uma imagem, o que poderia gerar tensão e “aumento da ansiedade”. Confrontado, Zuckerberg afirmou: “Eu vejo a parte do documento à qual você está se referindo”.

Ao final do interrogatório, Lanier exibiu publicações da autora impressas em um grande rolo de papel, que precisou ser desenrolado por seis advogados e chegou a bloquear a visão do público em relação a Zuckerberg.

Questionado se havia examinado detalhadamente o conteúdo e o tempo de postagem das imagens, o CEO afirmou que revisou parte das fotos, mas não todas individualmente.

Vulnerabilidade, metas e defesa pública

Lanier declarou: “Uma empresa razoável não deveria tentar ganhar dinheiro às custas dos desfavorecidos”. Zuckerberg respondeu: “Acho que uma empresa razoável deve tentar ajudar as pessoas que usam seus serviços”.

O executivo também afirmou que a companhia revisou práticas antigas focadas em ampliar tempo de uso. “Se algo é valioso, as pessoas vão usá-lo mais porque é útil para elas”, declarou.

Em nota, a Meta afirmou que caberá ao júri determinar se o Instagram foi fator determinante nos problemas relatados por KGM. Segundo a empresa, “as evidências mostrarão que ela enfrentou muitos desafios significativos antes mesmo de usar redes sociais”.

Na semana anterior, Adam Mosseri declarou que o uso pode ser “problemático”, mas não configura necessariamente dependência clínica. Sobre um episódio de 16 horas consecutivas de uso, afirmou: “Isso soa como uso problemático”.

Juíza repreende uso de óculos inteligentes

Durante a sessão, a magistrada interrompeu os trabalhos ao identificar pessoas na galeria utilizando óculos inteligentes com capacidade de gravação. Ela determinou a retirada imediata dos dispositivos e alertou para possível desacato.

O episódio ocorreu em meio à popularização de tecnologias vestíveis, incluindo modelos desenvolvidos pela Meta em parceria com a Ray-Ban. O caso é apontado como um dos julgamentos mais relevantes do ano envolvendo plataformas digitais e proteção de jovens no ambiente online.

(Com informações de Convergência Digital)
(Foto: Reprodução/Freepik/mixzer)

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